Sumi-ê

“Sumi-ê”
Escrito por Nemoto Sensei

O que é Sumi-ê ?

Uma antiga escola de pintura oriental, seria a resposta mais imediata.
Pinturas aparentemente singelas, temas da natureza e do cotidiano, sem perspectiva, num figurativo simplista e delicado.

Mas sumi-ê carrega em seus traços, aparentemente despojados e simplórios, algo que transcende ao mero figurativo, a representação de objetos, seres e conceitos retirados da Natureza e interpretados pelo homem. Nesse sentido, a alma de toda pintura sumi-ê poderia se dizer que reside no movimento, no devir, na incessante transformação e fluir de todas as coisas.

A técnica do sumi-ê utiliza-se de uma tinta preta que nos seus primórdios era preparada com fuligem e cola; o desenho é feito sobre papel fino e absorvente, como o papel de arroz e trabalha primordialmente apenas com a cor preta sobre o branco, numa espécie de croqui; o pincel muito macio é molhado na tinta cuja tonalidade é regulada pela diluição em água; também, alguns toques de outra cor são permitidos, dando mais plasticidade e emotividade aos desenhos. O artista do sumi-ê sempre sabe que seus traços devem ser únicos, espontâneos, sem hesitação, que qualquer tentativa de mudança no traço primordial iria borrar todo o trabalho.

Portanto, esta é uma pintura comprometida em captar o transitório, o impermanente, assim revelado em seus ágeis traços. Um estilo de pintura que remete a um “caminho de vida”, ou a uma postura de despojamento e desapegos – assim como todas as outras formas de arte oriental que, como o Sumi-ê, tenham derivado do zen budismo.
Ainda uma arte pouco conhecida entre os ocidentais, e até mesmo entre os orientais destes tempos da globalização, o sumi-ê (ou sumiye, como grafam as primeiras traduções sobre o assunto) originou-se na China e chega ao Japão lá pelo século XIII; concomitante a época em que a filosofia do zen budismo toma conta do pensamento entre a nobreza e os guerreiros samurais. Era então uma arte de elite que, em traços sensíveis, espontâneos e intuitivos, se propunha a expressar simplicidade, suavidade, pureza e nobreza – exatamente como os princípios de vida de um monge do zen.

Segundo Teitaro Suzuki, um dos primeiro escritores e mestres do zen a divulga-lo no Ocidente, o artista do Sumi-ê deve seguir sua inspiração tão espontânea, absoluta e instantaneamente quando ela aparecer, sem misturar lógica ou qualquer pretensão de realismo, de copiar a realidade objetiva. “O simples talo de um lis em flor, executado de maneira aparentemente tão negligente, sem a preocupação da perspectiva ou realismo, ou um pequeno barco de pesca, insignificante no início de uma vasta extensão de água, mas se olharmos melhor, não se pode deixar de ficar impressionados pela imensidão sem limites e pela presença de um espírito misterioso, que respira uma vida de eternidade no meio das vagas. E todas essas maravilhas são realizadas com facilidade e sem esforço pelo artista”. Em pinceladas determinadas, indeléveis, que não admitem retoque ou reflexão, quer dizer o autor.

O artista do Sumi-ê segue sua inspiração espontânea, absoluta e instantaneamente. Na vida, na arte, o zen prescreve seguir o espírito criador. “As coisas são magníficas quando forem inevitáveis”, arremata Suzuki. “Embora liberdade não signifique irregularidade, há sempre no Sumi-ê um elemento imprevisto ou súbito”. Esta via sem artificialidade deliberada, sem finalidade, vem diretamente do zen.

O “minimalismo” e o “clean” contemporâneos denunciam múltiplas influências e afinidades com as formas de arte surgidas daquele Japão remoto. Talvez porque hoje, também nós, os seres da “nova e agitada” era, mais do que nunca, buscamos uma forma de ser e de transcender, ou de digerir e processar este mundo caótico, consumista e auto-mutilador. Tudo está (ou sempre esteve) por um fio. Exatamente como a
sensação transmitida por uma pintura sumi-ê. O fio do pincel que desliza sobre o papel, tal como surja a inspiração do artista: sem admitir retoques, digressões, dúvidas… E a vida, a vida autêntica, não seria assim, contundente, sem “segundo turno”, sem revisão, sem “segunda edição”, assim mesmo?!
Independente dos inúmeros e estimulantes conceitos filosóficos que possam ser depurados da pintura sumi-ê, por si só suas imagens sempre conseguem se expressar melhor do que mil palavras – como diz um antigo ditado chinês. Assim sendo, sumi-ê é antes e acima de tudo uma expressão da Beleza, no seu sentido mais primordial.

No Brasil, o falecido mestre Massao Okinaka, que viveu seus últimos anos em São Paulo, foi o mais reconhecido transmissor da arte do Sumi-ê.

Poucos privilegiados estudaram com ele as técnicas desta arte; entre eles a Mestre Rita Bohm, que por sua vez transmitiu seus ensinamentos a jovem Suely Shiba, um dos raros e talentosos nomes a dedicar-se a propagação dos princípios do Sumi-ê entre nós.
De Março/1992 à Dezembro/1994 viveu no Japão – Cidade de Osaka. Aprimorou a língua e seus costumes. Deu continuidade à prática da arte marcial Aikido recebendo sua Faixa preta de 1º Dan. E descobriu a Arte Sumi-ê mas somente quando estava de volta ao Brasil e, percebeu que era uma extensão do Aikido, onde os movimentos leves e suaves se confundiam com os traços das pinceladas, iniciando assim a prática da Pintura Sumi-ê em 1996 até 1999 com a Mestre Rita Bohm , discípula do Mestre Massao Okinaka (in memorian), introdutor da arte Sumi-ê no Brasil.

Suely Shiba não é famosa (e nem poderia sê-lo, se expressando em uma arte que ainda é nada conhecida ou badalada pela mídia); não ostenta ares de estrelismo, nem tem pretensões a isso. Ela traduz, sim, na arte e na personalidade, os princípios básicos do Sumi-ê, como conceito existencial: singeleza, naturalidade, profundidade, desapego, quietude e serenidade interior.

“Não é necessária aptidão, ou possuir conhecimentos de desenho ou pintura para aprender a pintar segundo as técnicas do Sumi-ê”, assegura a artista, acrescentando que uma aula é muito mais que o exercício de uma técnica artística: “É um caminho espiritual para o equilíbrio e a paz interior”.

O tempo atual tem sido dedicado a produzir uma série de pinturas, em formatos e materiais inovadores, como papel artesanal.

(texto elaborado e cedido gentilmente pela jornalista Jezebel Salem Tel. (11)3083.4253)
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6 ideias sobre “Sumi-ê

  1. Diego Fernando

    Lendo o livro espírito do zen, de allan watts me interessei pela arte! pesquisei e gostei muito do que vi por aqui

    Resposta
  2. Erivaldo Silva

    Boa noite, Sra. Suely!

    Sou praticante, autodidata, de sumi-e e shodo e, por falta de cursos na minha cidade, utilizo-me de livros videos do youtube para o meu treinamento. Além disso, tenho dificuldades em encontrar o material adequado para a prática dessas artes.

    Pretendo no segundo semestre deste ano, matricular-me numa das suas oficinas de sumi-e, e por isso, gostaria de solicitar a sua ajuda sobre onde eu poderia adquirir em S.Paulo os materiais apropriados (pinceis, papéis, tintas, etc).

    Por esse auxílio, agradeço a sua atenção e gentileza.

    Cordialmente,

    Erivaldo Silva.

    Resposta
    1. suelyshiba Autor do post

      Bom dia, Erivaldo,
      Me perdoe, não sei se lhe retornei nesta mensagem.

      Bem, em SP, há a Livraria Sol, japonesa, onde poderá encontrar livros ,pinceis e tinta . Fica na Pç da Liberdade, bem na saída do Metrô.
      Tem tambem a Livraria chinesa, na Av. Liberdade, 622 , tb, fica na Liberdade. Eles oferecem vários materiais tambem . Espero ter lhe ajudado.
      Abs
      Att
      PS: Pode me escrever no e-mail suelyshiba@gmail.com

      Suely

      Resposta
    1. suelyshiba Autor do post

      Bom dia Marcos,

      Desculpe a demora.

      Infelizmente, Nao consigo visualizar a tua mensagem.
      Por favor, poderia me retornar pelo suelyshiba@gmailcom?

      Grata
      Att
      Suely Shiba

      face e instagram : Sumi-e Suely Shiba

      Resposta

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